O Cenário Brasileiro está evoluindo?

O Cenário Brasileiro está evoluindo?

 

A desqualificação da equipe test 123 (ex-paiN X), veio com uma carta de explicações. A Valve, empresa proprietária do Dota 2, alega que o objetivo das vagas regionais para as competições é o de fomentar os cenários locais. Por conta disso, equipes internacionais que escolhem uma região mais fácil para competir pelas vagas estariam apenas atrapalhando e atrasando o desenvolvimento da cena local.

O texto no papel faz sentido, mas fica uma pulga atrás da orelha. O cenário brasileiro e sul-americano, está mesmo evoluindo?

América do Sul contra o mundo

Faz tempo desde que a paiN tornou-se notícia por ter sido sumariamente sacaneada por PPD (curiosamente a mesma pessoa que reclamou da test 123 pra Valve), na época capitão da Evil Geniuses, o jogador se recusou a fazer a segunda partida das qualificatórias para a JoinDOTA MLG Pro League no servidor sul-americano, alegando que por ser um time grande, a EG deveria jogar somente em servidores bons para eles, obrigando a equipe brasileira a fazer todas as partidas no servidor NA, com alto ping.

Pior do que isso, o pedido de desculpas do rapaz “talvez se o país de terceiro mundo deles tivesse servidores dedicados de alta performance, eles poderiam mostrar todo seu potêncial” A equipe anunciou ainda uma “punição disciplinar” para o rapaz, que deveria jogar Tekken 4 com o personagem brasileiro Eddy e assistir ao replay da partida Brasil x Alemanha na copa de 2014, sobre a qual PPD ainda comentou “eles jogaram no servidor brasileiro e isso não os ajudou”.

O caso, além de provar a ulutante babaquice de certas pessoas, ainda mostra como nosso cenário é visto no exterior. Muitos times, equipes e até mesmo funcionários da Valve enxergam a região como menos importante. A atitude dos moderadores dos moderadores do torneio em questão de dar razão ao PPD mostra ainda mais o quanto somos diariamente passados para trás. Assim, atitude da Valve de restringir vagas para equipes que vivem e competem na região é um primeiro passo para fortalecer o cenário, mas será que é o suficiente? Vendo como a China baniu dois jogadores estrangeiros por muito menos, com o silencioso aval da Valve, parece que políticas anti-racismo só valem para equipes menores.

paiN Gaming - Buscando seu lugar ao sol

O nome mais conhecido quando se fala em Dota 2 no Brasil vem trilhando uma longa história de superação, e mais do que isso, estabilidade. Apesar das inúmeras mudanças nas posições de Mid e Suporte, o trio hFn, Tavo e Kingrd se manteve junto pelos últimos 4 anos, passando de uma formação desconhecida a uma base de equipe consolidada.

Em 2017, a equipe com Arms e Duster conquistou uma inédita vaga para o Bucharest Major e deu inicio a uma sequência de eventos que culminaria com a vinda de W33 para o mid e uma breve mas celebrada participação no TI 2018. Ao fim do campeonato, a equipe ainda optou por trocar Duster por Misery, uma formação que mostra-se dominante no cenário sul-americano e relativamente temida mesmo em a nível global.

A consequência desta estabilidade é vista hoje, com a equipe se classificando ou sendo convidada para praticamente todos os grandes eventos de Dota 2, e competindo em pé de igualdade contra times europeus e norte-americanos.

Thunder Predator, Playmakers e nossos hermanitos

Se de um lado a equipe brasileira mostra como uma fundação solida pode colher bons resultados, nossos irmãos sul-americanos parecem obstinados em criar confusão. Apesar dos bons jogadores, com participações em equipes globais, um grande mal da maioria dos times da região é tentar trapacear.

Há poucos meses, tivemos a Thunder Predator, sendo desqualificada das qualificatórias do TI 2018 pelo uso de macros. Este mês, a Playmakers foi eliminada das qualificatórias da Major de Chongqing por mentir sobre a identidade de um stand-in.

Apesar das nobres tentativas dos jogadores da região, atitudes como estas continuam diminuindo o respeito de nossa comunidade como um todo, além de servirem como base para alegações infelizes como as de PPD.

E para nós?

Quando falamos em qualidade da cena, imaginamos que nossos pubs são uma bagunça enquanto as partidas em servidores europeus ou americanas são extremamente organizadas, mas o negócio não é bem assim. Problemas como barreiras linguísticas e culturais estão presentes em todas as regiões. Tendo vivido o cenário do leste e oeste europeus por um tempo, posso dizer que o nível de bagunça é semelhante ao nosso, a diferença está no entendimento de jogo.

Enquanto jogadores brasileiros se voltam muito para seu próprio estilo de jogo, o Dota europeu tem um senso maior de objetivos de equipe. Em geral, partidas EU são mais organizadas e os times se movem mais como unidades do que individualmente.

Não que não existam problemas, as críticas dos jogadores do oeste europeu são o estilo “davai” (sempre agressivo), dos jogadores do leste, que muitas vezes não falam inglês e sim russo. Situação bem semelhante a que encontramos aqui no servidor brasileiro entre falantes de português e espanhol.

Dado que ambas as regiões lidam com problemas semelhantes, por que essa diferença de resultados? Investimento. Tanto asiáticos quanto norte-americanos e europeus recebem muito mais investimento na área de tecnologia e eSports do que nós sul-americanos.

Com isso, não somente as equipes tem condições de pagar salários para que seus jogadores se profissionalizem e treinem o dia todo, como o acesso de jogadores iniciantes a computadores, mouses, periféricos e internet de qualidade é muito mais fácil. Um link de fibra ótica de 100mbps pode custar menos do que 30 euro pot mês, ou seja, mais barato e superior a qualquer provedor nacional. Viver de Dota por lá é uma possíbilidade, e mesmo equipes pequenas e médias conseguem pagar seus jogadores.

Como podemos competir?

Creio que a resposta já foi demonstrada acima, pelos rapazes da paiN Gaming. Treinar e perseverar. Estamos pelo menos 10 anos atrasados no que se refere ao acesso a computadores e internet de qualidade, então temos que tirar a diferença na marra. Se quisermos competir com as equipes de fora, devemos prestar ao jogo a mesma dedicação que eles. Estudar as mecânicas mais básicas, aprender com nossos erros e tentar melhorar individualmente, mesmo nos pubs.

Toda vez que for abrir o chat para xingar alguém, pense: em vez de gastar meu tempo digitando, qual atitude eu poderia estar tomando agora para aumentar minhas chances de vitória? Qual item eu posso comprar a curto prazo para fazer a diferença? Como eu posso sugerir que uma pessoa mude de atitude sem soar ofensivo e tiltar ainda mais ela?

Reclamar dos colegas ou ficar afk não só te fará perder os jogos como não te ensinará a lidar com situações que podem ser superadas. Sem falar nos abates que sofremos enquanto estavamos digitando reclamando de outra pessoa…

Se trocarmos atitudes negativas por positivas, podemos não vencer o jogo, mas já condicionamos nosso pensamento a buscar saídas funcionais para os problemas encontrados. Economize a energia e a frustração que você teria ao tiltar e use-a para pensar de modo eficiente. Tenho certeza que se diminuirmos a toxidade de nossa região e trabalharmos em nossos próprios erros, podemos melhorar o cenário coletivamente, não só para nós, mas aos olhos da Valve e dos jogadores estrangeiros.

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